quinta-feira, janeiro 17, 2008

Contributos para uma política de turismo cultural para o Seixal

O Sr. Exmo. Presidente da Comissão Política Concelhia do PS Seixal propôs na sua mensagem de Natal a construção de um parque temático no Concelho, ligado à História dos Descobrimentos. Nessa mensagem o Dr. Fonseca Gil salientou a ligação do Seixal à História dos Descobrimentos Portugueses; por este motivo, e como meio de incrementar uma verdadeira política para o Turismo no Concelho do Seixal (uma vez que ela neste momento é praticamente inexistente), o Sr. Presidente propôs a criação de um parte temático que saliente essa ligação.
Conforme a JSD Seixal teve a oportunidade de salientar anteriormente é totalmente verdadeira a asserção do Dr. Fonseca Gil quando diz que falta visão estratégica ao actual executivo da Câmara Municipal do Seixal, principalmente no que diz respeito à área da Cultura e Turismo. Alias, as duas áreas não se podem separar, pelo contrario, complementam-se e muito! Todavia, não nos parece que seja através da construção de um parque temático que o turismo possa ser devidamente incrementado no nosso Concelho. Pelo contrário, poderá causar ainda mais problemas; ambientais, urbanísticos… O Dr. Fonseca e Gil contesta isto explicando que em várias cidades europeias foram construídos parques temáticos com grande sucesso, mas será que o Seixal poderá dar-se ao luxo de construir ainda mais no pouco espaço sem construções que resta no nosso Concelho?
A JSD entende que, para se viabilizar uma verdadeira política de turismo no Conselho do Seixal não será de todo proveitoso mais construção, pelo contrário, temos na nossa terra bons espaços históricos (uma vez que focou os Descobrimentos) que podem ser promovidos e utilizados para os fins que o Dr. Fonseca Gil propõe.
É essencial que se promovam não só no nosso Concelho, mas em todo o País, medidas firmes para a preservação e divulgação não só do património histórico (físico) mas também de tudo o que lhe está inerente: a história que já não pode ser vivida mas que pode ser narrada e explicada; a história/presente da natureza que pode ser em muitos casos observada in loco, como no caso do Sapal de Corroios. São três áreas onde a Câmara pode e deve apostar: a conservação dos monumentos/edifícios históricos (naqueles que estão sob a sua competência directa, no caso de não a possuir pode incentivar a intervenção do GESPAR para a sua classificação e recuperação, algo que tem sido muita vezes falado pelo PSD no caso da Freguesia de Amora); a criação de um verdadeiro núcleo museológico que explique a História do Concelho, interligando vários monumentos entre si e que por sua vez estes sejam integrados no seu meio geográfico e natural levando as pessoas a interagir com a história e a natureza. É sobretudo indispensável fazer uma forte divulgação daquilo que existe no nosso Concelho de maneira a ligar os munícipes à sua terra, ao sítio onde vivem, mas também para interessar e convidar a visitar a nossa urbe todos aqueles que não vivem aqui.
O «famoso» Boletim Municipal poderia servir para algo mais do que simples órgão de propaganda oficial da câmara. Uma vez que é distribuído gratuitamente e chega a grande parte dos munícipes, poderia ser utilizado para fazer a divulgação da história do Concelho, por exemplo com a divulgação de documentos importantes, com a respectiva explicação historiográfica. Um bom exemplo para começar seria o Foral concedido ao Concelho em 1836, separando-o assim de Almada; para além disso seria útil promover nesse espaço explicações sobre alguns edifícios e toponímia local.
Quanto ao período dos Descobrimentos a promoção com a zona ribeirinha do Concelho também pode e deve ser feita, mas não é necessário um parque. Temos um belo edifício no Concelho – A Quinta da Fidalga, com ligação a Paulo da Gama (como é sabido, era irmão de Vasco da Gama, tendo ido na viagem inaugural à Índia entre 1497/99) seria um excelente local para sediar um «centro do estudos/museológico» sobre o processo dos Descobrimentos e a sua acção no Concelho. Caso a Quinta da Fidalga não ofereça condições logísticas para tal, poderia ser utilizado um outro espaço que estivesse disponível no Concelho. Este «centro de estudos» estaria com certeza em interacção com outros espaços como o Ecomuseu Muncipal, dando a oportunidade de se apresentar aos visitantes como era feita a construção naval nos séculos XV e XVI, dar a conhecer os diferentes tipos de embarcações da época, quais as técnicas de navegação utilizadas, explicar como era feita a vida a bordo e como era o conhecimento do Mundo nesse momento pioneiro da história europeia. Uma vez que o Seixal sempre teve uma profunda ligação com o Tejo, seria importante apostar numa vertente ligada à história marítima. Para além disso, seria possível contactar vários especialistas neste assunto, e não só – também as outras vertentes da história local deveriam ser consideradas, para fazerem conferencias, neste local de «estudo» ou mesmo no Forum Municipal. Como forma de promover o conhecimento científico no Concelho, e uma vez que ainda não há nenhuma universidade no Seixal, a câmara poderia pedir a colaboração de Universidades para a elaboração de cursos de curta duração, seminários ou colóquios sobre variados temas, entre os quais se sugere a história local em várias vertentes, à semelhança do que acontece com outras autarquias (Cascais é um desses exemplos com cursos de Verão ligados à História e Cultura Contemporâneas). Consta que a Universidade Aberta vai instalar-se nas antigas instalações da Fábrica Mundet, porque não criar uma parceria com essa instituição para o desenvolvimento de estudos locais? Sobre história, a natureza, a geografia…
Para além dos Descobrimentos outras áreas poderiam ser tratadas num Museu próprio só para a história geral do Concelho, desde as primeiras descrições, achados arqueológicos, dando destaque a informações como os dados demográficos, registos paroquiais, dados sobre saúde e assistência e fazendo a ligação com a história do País, situando assim o Concelho num contexto mais alargado. Dar-se ia enfoque à época romana, passando pelos séculos da medievalidade e modernidade, aí destacando o terramoto de 1755 e consequente destruição no Concelho, em particular da Arrentela.
Este museu mais geral teria ligações a outros núcleos museológicos mais específicos, por exemplo o da Pólvora, (já prometido pelo presidente da edilidade) situado na Antiga Fábrica da Pólvora; um outro núcleo museológico interessante poderia ser sobre as Fábricas instaladas no Concelho ainda no século XIX no contexto da Revolução Industrial em Portugal, mostrando máquinas, explicando modos de trabalhar, e a influência que isso exerceu na população da época. Finalmente, um outro núcleo a considerar seria o das fábricas do século XX, como a Mundet ou a Fábrica de Vidros da Amora, explicando as suas funções, o seu funcionamento e demonstrando a centralidade que tinham na vida concelhia da época, transformando decisivamente o Seixal durante o século XX. Instalando um núcleo museológico sobre a cortiça, actividade que empregou centenas de pessoas no Concelho, destacando fábricas como a Mundet e a Wicander (da qual hoje só resta a chaminé). Tudo isto pedindo a colaboração e auxílio do IPPAR, IMC, dos Arquivos Municipal e Distrital e dos Arquivos Nacionais da Torre do Tombo.
Sem esquecer que há património rural e urbano que pode ser explorado turisticamente; que pode ser feita a valorização do património religioso, até em articulação com a Igreja; vários moinhos e das antigas quintas senhoriais. A natureza fará a ligação entre estes vários núcleos, dando às pessoas a oportunidade de a conhecer e de valorizar, esperando que a construção de ciclovias no Concelho avance a bom ritmo, que a preservação do Sapal de Corroios aconteça e que se veja finalmente a valorização que a Baia do Seixal merece; uma vez que a Câmara divulga tanto os seus métodos de conservação da natureza, poderia num dos seus espaços (porque não um dos moinhos que adquiriu?) instalar um pequeno espaço onde se possa explicar principalmente a crianças, mas também a adultos, processos de reciclagem, explicando as alterações ambientais provocadas pelas acções do ser humano. Os cidadãos residentes no Concelho poderiam ter desconto nas visitas.
Algo que se interliga com estes assuntos é a promoção da história e cultura locais na vida dos munícipes e principalmente dos munícipes mais jovens. É essencial que quem vive aqui conheça bem o sítio onde mora, que se sinta ligado a ele, que tenha vontade de o conhecer sem ser apenas as grandes superfícies comerciais. É importante apostar nessa divulgação nas escolas; no primeiro ciclo do ensino básico o estudo da história local já é feito, mas ele também poderia ser promovido junto das escolas básicas e até secundarias; incentivando-se a esse estudo em particular durante alguns dias do ano, não apenas fazendo visitas estudo, mas também impulsionando projectos escolares, exposições e até peças de teatro. Existem grupos de teatro tanto nas escolas como no Concelho que poderiam dramatizar quadros importantes da vida do Município, o que também poderia ser feito em colaboração com a Câmara de Almada, uma vez que há uma vida comum até à separação em dois municípios no século XIX. Trata-se sobretudo de valorizar aquilo que de melhor existe no Concelho e por isso não nos parece que seja necessário construir mais, mas sim restaurar e conservar o nosso património, permitindo que ele seja uma herança para as gerações vindouras e não que se destrua diante dos nossos olhos. São apenas algumas meditações sobre o tema, mas como é do debate democrático que nascem as grandes ideias e propostas que podem mudar para melhor a face daquilo que conhecemos, agradecemos mais sugestões.
Luísa Gama
Vice-Presidente da Mesa do Plenário da JSD Seixal

12 comentários:

Daniel Geraldes disse...

A historia que eu conheço é a estoria dos construtores civis, desses infelizmente conheço-a toda.

Filipe de Arede Nunes disse...

Um excelente texto da nossa companheira Luísa, revelador de conhecimento do que se fala, com ideias, um pensamento racional e racionalizado, organizado e pensado.
É a prova que a JSD Seixal conta nos seus quadros com pessoas que sabem pensar e articular ideias. É a prova de que a JSD Seixal não se limita a críticar o que está mal feito, como apresenta propostas - reais e não faraónicas - para alterar o status quo.
Cumprimentos,
Filipe de Arede Nunes

Anónimo disse...

Bom texto... gostei mesmo muito... continuação de bom trabalho

Ponto Verde disse...

Parabéns , ideias com pés e cabeça, assentes na (nossa) terra.

Considero também válidas as apresentadas pelo PS embora discutíveis.

Será de um caldeirão desinteressado de ideias e talvez de uma governança de Salvação Municipal que se poderá dar uma volta e desembaraçar este novelo de trinta anos.

Algumas humildes sugestões também no a-sul :)

Samuel Cruz disse...

Bom trabalho. Parabéns Luisa.

Filipe de Arede Nunes disse...

Caro Ponto Verde, Exmo. Sr. Vereador Samuel Cruz.
Em nome da JSD agradeço os comentários positivos que mereceu o texto da nossa companheira Luísa Gama.
Caro Ponto Verde, acompanhamos diariamente o blog A-Sul e compartilhamos, no geral, das sugestões por si lançadas.
Exmo. Sr. Vereador. Há algo que transcende o valor das ideias, que são sempre susceptiveis de discussão. Agradeço ao Dr. Fonseca Gil ter lançado a ideia do Parque Temático - não pela ideia em si, da qual discordo e sobre a qual já tive oportunidade de manifestar a minha opinião - pelo facto de ter possibilitado uma discussão mais profunda sobre o problema do turismo no concelho do Seixal e a forma de grangear visitantes.
É fundamental que as forças vivas deste concelho apostem na inovação das ideias para fazer face à realidade amorfa que mais de 30 anos de comunismo deixaram no Seixal.
Obrigado pelas visitas.
Cumprimentos,
Filipe de Arede Nunes

Pina Martins disse...

Antes de mais quero agradecer à Luísa o excelente texto aqui deixado.

Mais uma vez fico orgulhoso por os autarcas da JSD no nosso concelho trazerem ideias positivas e construtivas para um melhorar o nosso municipio.

Não posso também deixar de agradecer os comentários deixados pelos 3 visitantes.

Iremos dentro em breve anunciar na JSD Seixal novidades quanto a este tema que tanto tem mexido nos blogs do nosso concelho.

Saudações,

Velas do Tejo disse...

Parabéns, bom trabalho!

Ainda que muito baseado na "cultura de sequeiro" é, não só uma boa resposta como também a demonstração de uma brilhante atitude politica.

Para a próxima acrescente um paragrafo onde considere a náutica de recreio e equipamentos de suporte como uma porta de entrada no concelho, assim como elemento catalizador das actividades económicas já existentes.

Anónimo disse...

Agradeço muito os comentários aqui deixados ao texto que escrevi. Tal como referi no texto são apenas algumas ideias que podem contribuir para melhorar o nosso Seixal, turisticamente mas também culturalmente.
Caro Velas do Tejo, obrigado pela sugestão, a sua proposta parece-me bastante viável. Todos nós, meros cidadãos, políticos, membros de organizações cívicas devemos «pressionar» as autoridades competentes para que finalmente se comece a tratar com dignidade o concelho onde vivemos. Se a população continuar na sua grande maioria inerte e insensível para estas questões nunca poderemos mudar nada.

Cumprimentos a todos,
Luísa Gama

hkt disse...

Parabéns à Luísa pelo seu excelente texto e pelas propostas apresentadas! Este concelho prcisa da sua memória (preservada de forma não preconceituosa) não só para atrair os turistas com as suas especificidades (ninguém virá ao Seixal apreciar os "jardins de cimento" e as rotundas) mas sobretudo porque aqui se instalaram pessoas das mais desvairadas origens que necessitam de criar um laço identitário para se sentirem verdadeiramente integradas ... e isso não se consegue num dormitório perto de Lisboa, num subúrbio sem história ou vida para além do Boletim Municipal.

Marlene Pires disse...

Este post está muito bom. Concordo na íntegra com tudo o que foi escrito. Parabéns Luisa :)

Silvia Marques Leite disse...

Parabens Luisa,
o artigo está excelente pois relembra-nos do que muita gente tenta fazer-nos esquecer.