
Dado que o tema vem sendo discutido no blog há algum tempo, e em género de resposta alargada ao post do Daniel Geraldes, venho também eu contribuir com a minha opinião para o assunto.
Neste momento, em que a União Europeia olha para si mesma, à procura do que correu mal e que terá provocado o “Não” irlandês ao Tratado de Lisboa e procura uma solução (minimamente) viável para a situação criada, será positivo olhar para o problema de uma perspectiva mais afastada e global.
Com a rejeição, por parte da sociedade Holandesa e Francesa, da Constituição Europeia, criou-se no seio da União Europeia um dos problemas mais graves que esta enfrentou na sua história: As opiniões públicas de dois dos países mais antigos no seio da mesma rejeitavam um crescimento da integração europeia. A partir desse momento criou-se, a meu ver, o verdadeiro problema que hoje assola a União: O afastamento da liderança europeia relativamente às sociedades nacionais. Tal questão criou-se exactamente da sua oposta: O afastamento nasceu do desejo de aproximação.
Com a criação do Tratado de Lisboa veio também o desejo da sua aprovação por parte dos parlamentos nacionais, modo que oferecia uma maior segurança às lideranças europeias. Na minha opinião, tal decisão justificava-se plenamente, dado o carácter mais “administrativo” do Tratado em questão, relativamente à Constituição. Criou-se, no entanto, uma aproximação entre os dois documentos, aproximação essa que provocou nas sociedades uma ideia de que estariam a ser ignoradas no processo de construção europeia.
A construção europeia, enquanto processo de transferência de responsabilidades e direitos entre os Estados e a União nunca poderá avançar sem o consentimento das respectivas sociedades, sob pena destas entenderem o processo não como início de um novo capítulo da história europeia mas sim como um ataque ao Estado em questão, abrindo ainda mais o caminho a argumentos nacionalistas, com consequências imprevisíveis mas evidentemente negativas.
A meu ver, a construção europeia será consolidada ( e concluída) devido, principalmente, a uma pressão exterior. Existem vários exemplos disso na História Mundial, como o caso da criação dos Estados Unidos da América e da unificação da Alemanha. E tal pressão externa será, provavelmente, a diminuição da importância relativa da economia europeia a nível mundial. Enquanto o PIB europeu representa hoje aproximadamente 31% do PIB mundial(Dados do IMF), esta percentagem verifica uma tendência negativa, prevendo-se que, em 2050, nenhum país europeu pertença ao grupo das 6 maiores economias mundiais (G6)(Dados da Goldman Sachs). Após séculos de domínio a nível económico, tecnológico, cultural e militar, a Europa enfrenta um futuro negro. A sua posição mundial depende do sucesso da integração europeia, sob pena de se ver renegada do primeiro plano político e representar, apenas, um agrupamento de Estados de segunda linha.